|
Na passagem para o Terceiro Milênio estávamos iniciando o Curso de Pedagogia para Professores em Serviço, na cidade de Jaguarão, RS, com um grupo de 120 pessoas atuando nas escolas daquela cidade e região. Um trabalho conjunto dos professores do curso permitia que os encontros fossem preparados em reunião semanal. Buscávamos a interdisciplinaridade e a integração das alunas(os)-professoras(es) para um desempenho melhor das nossas atividades e para estimular os alunos num ambiente de compreensão, amizade, contato e vínculo. De certa maneira vivíamos essa integração no grupo dos professores através das reuniões de preparação, na participação conjunta em sala de aula, nas viagens para aquela cidade nos fins de semana, nos encontros de lazer e de descontração. Foi um trabalho realizado com prazer, com entusiasmo partilhado por nossas dedicadas alunas na participação cotidiana com suas experiências, com seus trabalhos de pesquisa e com os seminários apresentados nos finais de semestre para toda a comunidade. Houve um largo processo de renovação para os participantes e para nós professores. No interior desse movimento eu, particularmente, defendia os processos de participação e de integração utilizando também vivências, nesta perspectiva. Surgiu muito forte a necessidade de um aprofundamento no estudo dos processos de integração possíveis, particularmente pela formação de um ambiente articulado afetivamente. Foi então que iniciei o estudo ao ser proposto que trouxesse um texto sobre afetividade e integração para ser discutido na reunião do colegiado. O fato não veio a se consumar depois, mas o estudo continuou. Neste momento apresento este ensaio como resultado desse processo e ofereço como elemento para discussão e aprofundamento na instituição. O objetivo é a produção de uma obra que traga uma discussão a partir da visão sistêmica, principalmente no modelo teórico de Fritjof Capra, aplicando a teoria da Teia da Vida na abordagem das organizações sociais.
1.2. AFETIVIDADE Rolando Toro, criador do Modelo Teórico Biocêntrico, do Sistema Vivencial e Pedagógico da Biodanza, do Princípio Biocêntrico e da Educação Biocêntrica, define a “Afetividade” como um estado de afinidade profunda com os outros seres humanos, capaz de dar origem a sentimentos de amor, amizade, altruísmo, maternidade, paternidade, solidariedade. Pode gerar também sentimentos opostos como a ira, o ciúme, a insegurança e a inveja também consideradas componentes desse complexo fenômeno (TORO, 2002:90). Assim como a amorosidade permeia o universo e lhe dá integração dinâmica e criativa, a Afetividade em nós está presente em todas as dimensões do nosso ser e da nossa ação. O afeto é o dinamismo que está na origem, na base, no processo, nas estruturas e no significado de tudo que somos e fazemos. É semelhante à água, que se relaciona a todas as dimensões do nosso corpo quando estamos imersos nela. A Afetividade envolve a totalidade de nosso ser. Atualmente, a Afetividade está expressando-se em uma cultura e em uma organização social profundamente patológica como processo antivida instaurado em todas as dimensões pelo modo de ser e de viver competitivo ocidental. Somos envolvidos pelo afeto no próprio ato da concepção. Se neste ato os pais não estão envolvidos pelo amor, a tendência será uma série seqüente de situações não-saudáveis e processos patológicos que podem se desencadear. As adversidades relacionais de uma família, contudo, podem desencadear um processo de reação saudável e de superação dos limites em uma criança, num adolescente ou num adulto. No percurso do desenvolvimento da vida, o afeto é o clima, o solo, o cuidado protetor e nutritivo que permite e facilita um desenvolvimento saudável da pessoa. Ressalve-se que sempre existe possibilidade de qualquer pessoa adoecer afetivamente por sentimentos de ciúme exagerado, raiva excessiva, violência, ódio. Segundo Ronaldo Toro, a dimensão mais patológica do afeto é a discriminação racial, onde já se realiza uma dissociação profunda entre a sensibilidade e a Afetividade. René Spitz, em longa e minuciosa pesquisa, estabeleceu a relação entre amor e desenvolvimento da criança. [...]o cuidado e a segurança nos primeiros meses de vida, são cofatores do desenvolvimento. As crianças que não recebem amor nessas primeiras etapas, não conseguem estabelecer, (como dissemos anteriormente), a ponte córtico-diencefálica que relaciona o mundo externo com o mundo emocional e visceral (in APOSTILA DA ESCOLA DE FORMAÇÃO: 23) E o texto segue: [..]crianças com carência de afeto terão um retardo no crescimento, na linguagem na inteligência. Em casos graves, caem em depressão analítica e marasmo. Cerca de 60% das crianças institucionalizadas que não recebem amor, morrem antes dos dois anos de idade apesar de estarem bem alimentadas e com cuidados higiênicos e clínicos indispensáveis (in APOSTILA DA ESCOLA DE FORMAÇÃO: 23). As síndromes clínicas que a carência afetiva produz na primeira infância foram estudadas e analisadas por Spitz. Esse autor “descobriu que as crianças institucionalizadas, em seus primeiros meses de vida e com carência de afeto materno, experimentam danos irreversíveis nos aspectos motores, afetivos, de linguagem e de desenvolvimento intelectual” (APOSTILA DA ESCOLA DE FORMAÇÃO: 24). Neste sentido, encontramos fundamentos do assunto em Ronaldo Toro quando nos fala da linha da Afetividade em Biodanza. “A gênese biológica da linha da Afetividade está relacionada ao instinto de solidariedade dentro da espécie, à capacidade de empatia (identificar-se com o outro), aos impulsos gregários, às tendências altruístas e aos ritos socializantes” (TORO, 2002:89). Estudos científicos também indicam a vigência dessa força agregadora na natureza. “A biologia celular demonstra a existência de verdadeiras comunidades de células que integram algumas operações bioquímicas de cooperação entre elas” (TORO, 2002:59) E acrescenta Os sistemas vivos são potentes mecanismos de coerência nos quais funcionaram os princípios de afinidade, de rejeição, e nas quais cada parte se coloca a serviço da unidade biológica (TORO, 2002: 89). Baseado em Jacob Mexkall, Rolando entende que: Um indivíduo dissociado da espécie representa uma doença para a totalidade. Esses impulsos biológicos (para) de cooperação, de integração e de solidariedade culminam, no homem, em sentimentos altruístas, e constituem a gênese do amor (TORO, 2002: 89). Pela Afetividade, as pessoas se identificam com as outras, sendo capazes de compreendê-las, amá-las, protegê-las ou, também, rejeitá-las. Segundo J. Ortega Y Gasset (apud TORO), a Afetividade compreende qualquer exaltação de ânimo, especialmente o amor, a ternura e o ódio. Pode haver a dimensão do “amor diferenciado”, dirigido a uma só pessoa, e a do “amor indiferenciado” dirigido à humanidade. (TORO, 2002:89) Enquanto a vivência é intensa e fugaz, a Afetividade é complexa e permanece ao longo do tempo. Implica a participação da consciência, da memória e da representação simbólica (TORO, 2002:89). “A linha da Afetividade tem na Biodanza a sua expressão privilegiada no amor. As formas patológicas da Afetividade se expressam nos impulsos autodestrutivos, na discriminação social, no racismo, na injustiça” (TORO, 2002:90). Assim, podemos dar seqüência a inúmeras análises das implicações da afetividade nas relações humanas. Por ora, desejamos ressaltar a importância da afetividade no processo educativo como fator de integração de grupo. A unidade afetiva de um grupo dá a este as características de um organismo vivo(CAPRA, 2002). Sem mencionar esta palavra este cientista nos oferece esta interpretação ao aplicar a Teoria Sistêmica da Teia da Vida às organizações sociais. Assim, nós utilizaremos seu Modelo Teórico para fazer a abordagem da Afetividade e abrir espaço para aplicação desta teoria para a articulação das relações de sala de aula. 1.3. COMPLEXIDADE Construir o saber de forma integrada com a vida, vinculando razão e coração, conhecimento e sentimento, o saber integrado que brota de nossas percepções sensíveis, das vivências emocionadas, da conexão do nosso coração com as surpresas da vida, pressupõe integrar o pensamento linear, novas teorias de aprendizagem, novas estratégias operacionais para levar um processo aberto e crescente baseado no erro e na incerteza, como diz Morin, inspirado no poeta espanhol: “o caminho se faz caminhando”, obedecendo ao fluxo da realidade e da vida, a complexidade da vida e do ser (MORIN, 2003:52-53).. Não se trata de estabelecer o caos como norma. Trata-se de encontrar a forma de conhecer como peregrinos da verdade que nunca se esgota, sendo sempre surpreendente porque brota da vida e de seus fenômenos. Conhecemos através da totalidade do nosso ser, do nosso corpo, da nossa percepção sensível, da emoção, do sentimento, da ação concreta e da razão. Instrumentais metodológicos das ciências, lógicas e matemáticas, históricas e sociais, isoladamente, não conseguem abranger a realidade dos fenômenos da vida que ultrapassam a racionalidade lógica. Os pensamentos lineares, mecanicistas, antropocêntricos não dão expressão sistemática e teórica às coisas que não estão ao seu alcance. A dimensão subjetiva é sistematicamente rejeitada. Poder-se-ia crer na possibilidade de eliminar o risco de erro, recalcando toda a afetividade. De fato o sentimento, a raiva, o amor e a amizade podem cegar. Mas é preciso dizer que já no mundo mamífero e, sobretudo no mundo humano, o desenvolvimento da inteligência é inseparável do mundo da afetividade, isto é da curiosidade, da paixão, que por sua vez são a mola da pesquisa filosófica ou científica. A afetividade pode asfixiar o conhecimento, mas pode também fortalecê-lo (MORIN, 2002:20). Foi a sensibilidade poética e perceptiva que levou os cientistas a afirmar os seus limites com a honestidade ética que lhes cabia. Maturana e Varela tiveram a grandeza de declarar os limites de suas pesquisas que pretendiam ficar na dimensão científica como o desejado. Eles visualizaram e indicaram a possibilidade do conhecimento articulado por um processo integrado e cooperativo nos seres vivos, na microbiologia. Entenderam e afirmaram com profunda propriedade que o processo evolutivo da vida no universo é um processo cooperativo inerente aos seres vivos (CAPRA, 2002:89). A visão sistêmica, tendo como pressuposto o processo de articulação da vida, processo sempre renovado, surpreendente, faz com que nos posicionemos num caminho que se faz na prática. Não é possível um método prévio para ser aplicado, mas a humildade de caminhar na investigação, encontrar a expressão da verdade (MORIN, 2003:51) e explicitá-la como fenômeno das dimensões reais do ser que, por si só, pode ser apreendido por um movimento vivencial e integrado. O afeto existente na troca de um abraço só é possível ser conhecido vivencialmente, apesar das inúmeras considerações pertinentes que possamos fazer. Analisar os efeitos físico-químicos e psicológicos desse ato pode ser possível através dos recursos das ciências médicas, recursos laboratoriais, mas, efetivamente, tudo que acontece num encontro emocionado não é dizível por nossa linguagem explicativa. A poesia pode nos dar proximidade sensível desse conhecimento, nunca a sua totalidade. O desafio na linguagem sistêmica é a integração da linguagem científica, histórico-social, filosófica e poética. Neste sentido, ao falar sobre os “Sete saberes necessários à educação do futuro”, Edgar Morin nos diz: Acrescentemos que o saber científico [...] não só é provisório, mas também desemboca em profundos mistérios referentes ao Universo, à Vida, ao nascimento do ser humano. Aqui se abre um indecidivel, no qual intervém opções filosóficas e crenças religiosas através de culturas e civilizações (PRÓLOGO, 1999:13). Começamos a falar da primeira e grande característica da vida em nós: a Afetividade. Deixamos fluir a abordagem e a reflexão uma vez que delineamos as dimensões epistemológicas que, segundo F. Capra, têm uma surpreendente proximidade e distância do esquema teórico aristotélico da causa formal (causa interna que cria e sustenta o fenômeno), material (o resultado constitutivo do fenômeno em si), a causa eficiente (a que gera o fenômeno por sua ação) e causa final (a que gera e determina a ação da causa eficiente por dar-lhe um sentido, um objetivo). A integração dinâmica dessas causas permite a abordagem do fenômeno do jeito grego. O distanciamento da abordagem aristotélica está no fato de essa resultar numa descrição linear do fenômeno. Esse fundamento filosófico, do paradigma cosmológico determinista grego que, retomado pelo movimento de retorno ao modelo clássico grego-romano, permite delinear uma visão mecanicista do mundo moderno, centrada no paradigma antropocêntrico em cuja gênese vivencial está a experiência de expansão e conquista da Europa comercial, burguesa, em diversas direções do planeta, tendo hoje atingido a globalização do mercado e da cultura avassaladora. Seus efeitos sobre o planeta e sobre a humanidade são profundos e abrangentes. A diferença da abordagem sistêmica, da construção da complexidade com a visão aristotélica é que essas quatro dimensões estão recheadas da vida em sua forma, em seu significado. O fluxo da vida é sempre surpreendente. A vida se concretiza na materialidade, mas a ultrapassa, dá-lhe o dinamismo vivo, dá-lhe o caráter do sagrado, da beleza, do ministério. Retomando os princípios epistemológicos delineados por Fritjof Capra, visa-se concretizar uma caracterização da Afetividade em cada uma das quatro dimensões: natureza, processo, estrutura e significado da Afetividade e enriquecer formas criativas de conhecimento e de vivência. Este ensaio servirá para ser lido, refletido, corrigido e enriquecido com o espírito de cooperação do leitor. É um processo em construção, aberto, humilde, profundamente acadêmico. Senti a oportunidade de nutrir o processo de integração do grupo com a mediação do Sistema Vivencial, Teórico e Pedagógico da Biodanza. Isso iria contribuir para o estabelecimento de contato e de vínculos, ampliando os laços na tessitura da teia da vida daquele grupo. Estimulado pela vivência de Biodanza e pelo processo de formação de facilitador, comecei a estudar os elementos fundamentais do Modelo Teórico originado na Visão Biocêntrica, principalmente pelo estudo da Afetividade como elemento integrador dos outros potenciais humanos da Identidade. Aos poucos, percebia que os vínculos afetivos dariam consistência a esse processo de integração de grupo. Hoje podemos compreender a propriedade de um saber que mostra as origens, processos, dimensões e o leque das funções fundamentais da Afetividade. Através da teoria da complexidade, com interdisciplinaridade, podemos dar lugar à investigação de componentes do universo dos instintos, percepção, das emoções, dos sentimentos e sua integração estrutural com o desenvolvimento do pensamento racional. Os estudos da física quântica, da matemática, da biologia celular conduziram os estudiosos a situações-limite que exigiram a mudança de percepção da realidade e das dinâmicas do universo. A convergência de diferentes pesquisas permitiu que Rolando Toro explicitasse o novo paradigma, o Paradigma Biocêntrico. Ele ganha clareza e consistência na percepção conectada, viva e emocionada de que a vida é o centro de tudo. A primeira grande característica da vida, segundo Rolando Toro, é a amorosidade. Sendo o universo um organismo vivo, a amorosidade permeia tudo o que existe e se expressa no homem como Afetividade. Ela estará presente em todas as dimensões da vida humana. A reflexão e construção de conhecimentos em torno da categoria Afetividade aconteceram porque a participação no Curso de Pedagogia de Jaguarão, como afirmei acima, despertou em mim a necessidade de buscar o aprofundamento crescente sobre o tema, na vida e na educação. É necessário conhecer a partir de bases epistemológicas da teoria da complexidade, dessa nova estratégia de aprendizagem (MORIN: 2003) e das bases epistemológicas da teoria sistêmica (CAPRA: 2002). A produção de um ensaio sobre a Afetividade, sua natureza, sua dinâmica, suas estruturas em rede e seu significado é uma exigência educativa para mim. É isso que pretendo realizar fluindo no meu caminho. O desafio servirá para maior conhecimento integrado ao processo vivencial que procuro oferecer aos educandos. O desejo de conhecer e incorporar formas concretas de articulação de processos integrativos dos alunos nas salas de aula motivou-me a pesquisar principalmente a relação da Afetividade e Educação. Inspirado nos conhecimentos sobre a nova Visão Biocêntrica, da Pedagogia Biocêntrica, do Sistema Vivencial e Pedagógico da Biodanza, nas leituras e reflexão de F. Capra, nas tendências pedagógicas convergentes e centradas sobre a vida, particularmente Paulo Freire, percebi a viabilidade e a necessidade dessas formas de integração professor-aluno. As análises de Capra das organizações como organismos vivos, oferecem um modelo teórico aqui utilizado na abordagem da Afetividade que vamos desenvolver de forma integrada com os outros conhecimentos indicados. Ao escrever o livro Conexões Ocultas, Capra sintetiza a “teoria sistêmica” ou pensamento não-linear, nos primeiros capítulos do livro, elaborado até então, principalmente nas obras O Ponto de Mutação, Sabedoria incomum e, principalmente, em A Teia da Vida. A seguir, no capítulo 3, elabora as bases epistemológicas para estudo da realidade das organizações sociais. Uma “estrutura teórica unificada e sistêmica” para a compreensão dos fenômenos biológicos e sociais. 2. NAS TRILHAS DE UM MODELO TEÓRICO 2.1. O CAMINHO SE FAZ CAMINHANDO O estudo do tema Afetividade será abordado nas quatro dimensões propostas e deverá visualizar formas operacionais para o processo de integração nas salas aulas. De forma resumida, as características desse esquema epistemológico, articulado ao fenômeno da Afetividade, apresentam-se assim: 2.1.1. Raízes na Terra e no céu. Começamos pelo padrão de organização, que se reflete na configuração das relações entre os outros componentes do “sistema” (processo, estrutura e significado) como uma rede auto-organizadora. O padrão de organização, segundo Capra, determina o processo das relações que se estruturam dentro de uma organização a partir de um sentido identificado como razão de sua existência. À semelhança da organização, elementos “imateriais e orgânicos” determinam nosso comportamento afetivo, assim como biologicamente o potencial genético determina a estrutura orgânica da pessoa, a pigmentação da pele, a cor dos olhos, a fisionomia, etc. Então, nós temos pré-condições para a vivência da afetividade, para formação de estruturas de relações grupais concretas com consciência da finalidade específica dessas vivências. O conhecimento da Afetividade é, acima de tudo, vivencial e deve teoricamente ser elaborado. Para isso, o Modelo Teórico de Capra é um indicativo para um caminho de investigação que se fará caminhando. Em primeiro lugar, o padrão de organização ou de configuração das redes de relações afetivas de uma pessoa, de um grupo, de uma organização e da espécie tem seu componente original no código genético. O registro do passado da trajetória do universo como um organismo vivo, a configuração das relações que se estabelecem no desencadeamento dos contatos e na formação dos vínculos, tem uma estrutura organizada no DNA, com a disposição originária à vivência na medida em que os fatores internos e externos acionam os instintos humanos, despertam a percepção deflagrando a emoção, a formação dos sentimentos, a constituição do saber integrado em nossa inteligência afetiva, em nossa racionalidade cuja fonte originária é o afeto. Por analogia podemos indicar a existência de uma estrutura “cognitiva, de natureza imaterial, com uma base corporal e orgânica” (CAPRA, 2002), e que se concretiza em nosso potencial de afeto articulado a partir de nossas informações genéticas, sustentadas em bases químicas, dos nossos sentidos e da sua conseqüente percepção sensível, da emoção, dos sentimentos e do conhecimento elaborado por nossa inteligência afetiva. Por natureza da própria vida, essa estrutura é auto-renovável, “auto-poiética” (MATURANA E VARELA: A árvore do conhecimento:1995) assim como uma célula viva. Isso significa, segundo F. Capra, que a vida existe onde existe uma estrutura material a ela integrada e que lhe dá caráter de realidade viva (CAPRA, 2002). Assim, a Afetividade tem uma base material, corporal, orgânica e racional que permite sua dinâmica e sua expressão carregada de significado. No mesmo sentido, Rolando Toro afirma: A meu ver, de qualquer modo, a Afetividade não é apenas expressão de um sentimento individual ou uma forma sutil de comunicação, mas também a manifestação de mensagens relacionais pré-existentes em todos nós que predispõe às ligações afetivas entre os seres humanos; E a idéia da rede é reiterada nas palavras do fundador do movimento de Biodanza: Somos, de fato, unidos por múltiplos canais de conexão, dos quais não somos conscientes (TORO, 2002:90). Essas colocações de Rolando Toro surgem dos seus estudos sobre vivências de Biodanza nos quais conclui sobre a Afetividade como potencial pertencente a uma estrutura genética originária (causa formal, que dá formato, que dá pré-condição à forma das relações) e de todas as pré-condições materiais e orgânicas para a Afetividade. Rolando refere-se então, a Julius Fast, o qual descobre, em relação ao “diálogo psicotônico”, que: “colocando sensores de tensão muscular no corpo de duas pessoas, a simples proximidade entre elas mudava os níveis de tal tensão. Isso significa que cada um tem, em relação ao outro, um efeito relaxante ou tensivo” (TORO, 2002:90). Refere-se também aos estudos tomográficos realizados com casais durante o beijo, a carícia e o ato sexual evidenciam que mudanças em todos os níveis neurofisiológicos: alterações do equilíbrio neurovegetativo, do níveis de secreção endócrina e da ação de neurotransmissores, modificações do metabolismo celular e repercussões na defesa imunológica (ROLANDO TORO,2002:90). Se a presença de uma pessoa provoca modificações no tônus muscular e em nível neurofisiológico, Rolando entende que há “continuum afetivo entre os seres humanos”. E as alterações revelam distintos níveis de reciprocidade. E sugere que as percepções do outro “abarcam a totalidade do organismo, e não só as emoções. Os seres humanos são órgãos transmissores e receptores de Afetividade. Em geral, esse fenômeno é inconsciente, e é por isso que as pessoas amam sem saber verdadeiramente por quê” (TORO, 2002:90). A experiência clínica em psicopatologia levou J. J. Lopez Ibor à opinião de que as “pessoas se instalam nos órgãos”. A influência recíproca, segundo Rolando, pode alterar funções orgânicas quando a pessoa é tóxica. “As pessoas se instalam, segundo o caso, nas artérias cerebrais, no coração, no aparelho digestivo ou nos genitais, assim, para alterar o funcionamento desses órgãos”. A rede afetiva está instalada em nível genético-celular, nível visceral, em todos os níveis de sistemas orgânicos, nas emoções, nos sentimentos e em certas condições de memória e pensamento (TORO, 2002:90). E continua afirmando que: O movimento de amor de um indivíduo para outro é da mesma natureza do infinito movimento da energia cósmica que luta para se expressar em nossas vidas desesperadas, em meio a guerras fratricidas e formas culturais inadequadas (TORO, 2002: 90-91). Em linguagem metafórica e poética Rolando nos diz que: [...] o significado da vida é implícito, no ato mesmo de viver, fora de toda teleologia. Este ato mesmo de viver, o ato de ligar-se, não é outro senão o passo titubeante no longo caminho do amar. (TORO, 2002: 90-91). Assim, podemos afirmar, da mesma forma que Rolando ao referir-se à linha da transcendência, “A linha da Afetividade tem uma origem biológica e uma infra-estrutura instintiva” (TORO, 2002:91). Essa frase sugere nossa percepção sobre a dimensão da Afetividade como potencial originário estabelecido em nosso organismo inteiro como pré-condição de desencadeamento, de um processo de relações que estabelecem redes vivas das mais variadas estruturas de vínculos em vista do sentido nutritivo e realizador do afeto na vida de cada um, do grupo e do universo. A Afetividade tem também a natureza essencial do sistema vivo, sendo, no meu ponto de vista, a essência do sistema vivo das linhas de vivência do ser humano. Ela tem dimensões biológicas e imateriais, individuais e sociais por sua natureza. Assim, do ponto de vista dos padrões que a inserem na natureza biológica do nosso organismo, pela potencialidade genética, instintiva, a Afetividade apresenta um padrão de organização em rede de seus componentes. Em específico, esse padrão de organização do sistema vivo da Afetividade como a configuração das relações entre os componentes do sistema é que determina as características essenciais (de todo o sistema) da Afetividade no seu acontecer que organiza “estruturas” de relacionamentos com um sentido de integração do ser humano e suas potencialidades. Esse padrão registrado potencialmente como cognição na estrutura genética e mediado no seu processo pela estrutura instintiva e orgânica vai possibilitar a configuração das relações afetivas de atração, empatia, ternura, cuidado, etc, e a estrutura das relações, ou a incorporação efetiva dessas relações no complexo dinamismo de pares, de grupos afetivos de toda ordem, de famílias e de organizações (CAPRA, 2002). Nesse complexo social, estão todos os meios, recursos, formalidades de linguagem, de signos, de movimentos, de expressões, de organizações que materializam as relações. As expressões “padrão” e “estrutura” parecem muito rígidas para serem aplicadas à Afetividade. Contudo, “o padrão”, neste sentido, refere-se à disposição orgânica, instintiva e mental do homem para estas relações. Estrutura, sempre que se refere ao afeto, é a organização efetiva das relações que têm por característica a flexibilidade e a abertura para o novo e surpreendente. Ninguém ama por obrigação, mas por compromisso, ninguém é amigo por qualquer exigência, ninguém pode manter um grupo de amizade à força. A natureza dessa relação é a flexibilidade, a troca, a fluidez. Pode ocorrer uma tendência à rigidez quando as relações passam a ser doentias e tóxicas. 2.1.2. No fluxo do afeto: A segunda dimensão a examinar é o desencadeamento dos processos vivos de organização da relação afetiva em rede, os processos pelos quais a Afetividade se realiza. É a realização dinâmica do padrão de organização na essência viva das relações de afeto da pessoa consigo mesma, com o outro e com o cosmo. Nesse sentido, os sistemas vivos são sistemas cognitivos, nos quais o processo de cognição está intimamente ligado ao padrão de autopoiese. É um sistema cognitivo amplo ligado ao padrão de autoprodução do ser humano, não só uma reprodução biológica, mas de autoprodução da própria essência desse ser de relações afetivas, reprodução do grupo. Assim como os alimentos reproduzem e sustentam a vida em nosso organismo biológico, a Afetividade nutre a existência do próprio ser humano em suas dimensões espirituais e orgânicas. O padrão em rede em si mesmo é considerado imaterial (CAPRA, 2002, 99). Caracterizada, então, teoricamente como processo, vamos encontrar a dinâmica viva, presente e relacional da Afetividade sempre que se dá a conexão com a realidade no fluxo da vida. A Afetividade viva, vivencial, emocionada, tornada emoção, sedimentada nos sentimentos, expressa numa racionalidade afetiva, é a dimensão mais profundamente dinâmica do fato da vida. A vida é movimento aberto, acontecimento que se concretiza como Afetividade. Criatividade, sexualidade, vitalidade e transcendência. Em outras palavras, o dinamismo do afeto perpassa nossas células, nosso organismo, nossos sentidos, nossas emoções, nossos sentimentos e nossa inteligência afetiva. Ela tem referência a toda realidade pertinente ao homem, seja no processo criativo existencial, nos desejos e na satisfação prazerosa de sua realização, no movimento vital do organismo integrado com a dança cósmica plena de sentido, seja na conexão profunda, emocionada e integral do homem com sua própria identidade, com a identidade do outro e com a identidade do universo. No organismo humano, segundo Rolando Toro, a Afetividade é a linha de vivência integradora da expressão e desenvolvimento da criatividade, da sexualidade, da vitalidade e da transcendência humana (TORO, 2002:90) Ela é o processo de integração afetiva, de renovação orgânica e de resgate das condições originarias e naturais da vida em nós. Isso se traduz, segundo César Wagner, Em "um sistema de integração afetiva, renovação orgânica e re-aprendizagem das funções originárias da vida". (TORO, in GÓIS, 2002:24). Integração afetiva: significa a integração sutil e plena entre percepção, motricidade, Afetividade e funções viscerais, consideran-do a Afetividade como núcleo integrador; Renovação orgânica: manutenção dos processos de renovação e regulação das funções biológicas, gerando mais neguentropia e mais complexidade; Re-aprendizagem das funções originárias da vida: expressão e fortalecimento de um estilo de viver, enraizado nos potenciais genéticos de vitalidade, sexualidade, criatividade, Afetividade e transcendência; significa resgatar a vida instintiva como fluxo propulsor e orientador do viver (GÓIS: 1999:24). “Queremos enfatizar que a Biodanza é uma grande obra poética de um poeta que ousou revelar a vida como hierofania, presença do sagrado em todas as coisas do mundo. É uma poética do encontro humano” (GÓIS, 1999:24). A Biodanza é o processo operacional para resgatar essas condições de vida. Podemos ver como exemplo que, nessa dinâmica relacional dos seres humanos, a simples presença de uma pessoa pode provocar em nós modificações no tônus muscular, o que “indica que a nível neurofisiológico existe um continuum afetivo entre os seres humanos”(TORO, 2002:90). “Algo interessante é que essas alterações revelam distintos níveis de reciprocidade. Posso sugerir que a percepção do outro provoca respostas que abarcam a totalidade do organismo, e não só as emoções. Os seres humanos são “órgãos receptores e emissores de Afetividade”. Em geral, esse fenômeno é inconsciente, e é por isso que as pessoas amam sem saber verdadeiramente o porquê” (TORO, 2002:90). A Afetividade é a dimensão essencial da natureza da vida, a primeira característica que se revela no fato de existir. É o transbordar de imenso amor que criativamente se expressa num universo em expansão sempre surpreendente de beleza, de ritmo, de harmonia, de sagrada voluptuosidade. É essa amorosidade que permite um processo de misteriosa organização neguentrópica da vida, renovando-se, reproduzindo-se. É a potência agregadora, cooperativa e organizadora presente desde o caos originário. É a Afetividade que permeia as relações dos elementos que materializam cada coisa que existe no universo, que engendra e assegura um processo cooperativo de unidade de elementos que constituem a materialidade do cosmo, que dinamiza cada tecido, cada célula em estreita coerência com a outra, com o órgão, com o organismo biológico. É a Afetividade expressa no toque, no olhar e no cuidado da mãe vinculada, terna e abundante com o bebê que permite a conexão hormonal do sistema cerebral arcaico com o córtex, dando configuração à inteligência afetiva integradora da dimensão emocional e sentimental do amor com a dimensão da racionalidade que, segundo Piaget, se desenvolverá gradativamente, com o nutriente da afetividade. É o seio terno e delicado da mãe que dá ao bebê a nutrição orgânica, nutrição que brota do olhar amoroso, do toque de caricia, do movimento delicado e facilita o delineamento, ampliação e desenvolvimento da capacidade perceptiva e sensível dos instintos na criança. Ao nascer, o bebê tem o paladar desenvolvido para degustar do leite materno e, ao mesmo tempo, já tem a disposição orgânica de sucção do seio (SPITZ: 1979). A visão, o olfato, o tato vão estruturando o potencial perceptivo inerente ao instinto. Assim, o amadurecimento orgânico e sensível do ser humano vai-se dando gradativamente. É com todo o aparato perceptivo em ação e em contato com a realidade que, instintivamente e de forma natural, sentimos atração, empatia ou repulsa e desprazer em relação a um objeto conhecido. É a totalidade do nosso organismo e do nosso ser que desencadeia a capacidade afetiva em nós e permite a vivência efetiva dessa dimensão. 2.1.3. Na casa do afeto: Em terceiro lugar, busca-se identificar o resultado dessas relações afetivas em rede, alguns indicados acima, estruturas que se constituem a partir do potencial afetivo colocado em ação por diferentes fatores internos e externos, induzidos pelo sistema de Biodanza Trata-se de uma rede viva de relações de afeto que se expressam como modo concreto de ser e de viver, numa integração orgânica pessoal, da identidade, dos grupos, das organizações e das instituições. Repetimos, é o processo vivo como o processo contínuo de incorporação do potencial que se apresenta em nível genético, instintivo, da sua conseqüente percepção, da emoção afetiva, dos sentimentos de amor em geral e da inteligência afetiva integrada de forma orgânica a esse padrão em rede. A realidade material dessa vivência do afeto materializa-se em redes constitutivas de grupos de amizade, de famílias, de fraternidades, de grupos de atividade social, de grupos políticos vinculados a um processo amoroso de dar vigência a processos políticos participativos e qualificadores dos participantes do grupo e da comunidade. Uma instituição e a organização da cultura do afeto origina uma sociedade aberta, nutre e desenvolve uma sociedade do amor Segundo Capra (Conexões cultas: 2002), um grupo de pessoas que estabelece contatos e cria vínculos dá origem a uma rede de relacionamento em torno de objetivos comuns, de processos comunitários e democráticos de qualificação, formando ali um novo organismo vivo. Onde há um organismo vivo e integrado há uma estrutura dissipativa, uma abertura para o processo evolutivo, uma flexibilidade para a mudança adaptativa ou de reestruturação, para a consistência e flexibilidade adaptativa e evolutiva dinâmica, evitando a fixidez, a perda de energia e a conexão com os processos criativos, prazerosos, vitais e de harmonização. Reitero, o padrão em redes que os sustenta, considerado em si mesmo, é imaterial (CAPRA, 2002: 101). Uma organização permeada pela Afetividade apresenta uma estrutura flexível, uma estrutura dissipativa, dimensão pela qual é possível um processo dinâmico, aberto para a transformação ativa, propiciado pela natureza das relações de afeto: estreitamento relacional, proteção, cuidado, nutrição, acolhimento, compartilha-mento, alegria que brota da vida e se manifesta em gestos e cerimoniais comemorativos. A natureza dos vínculos dá à organização as características de um ser vivo: a capacidade de renovação e de autoprodução criativa, a potencialização de sua capacidade criativa, a potencialização da capacidade política de unidade e consistência do grupo na cumplicidade em torno da qualificação, da autonomia, da capacidade de ação potencializada em todas as direções. Segundo a hipótese de F. Capra (2002), esses fenômenos ocorrem nas organizações que se constituem em organismos vivos. De modo geral, as organizações no Ocidente tendem à rigidez piramidal, autoritária, sem vida, que são frágeis às turbulências da globalização. A estrutura dissipativa não está relacionada à desagregação e, sim à possibilidade aberta de novas formas de ser, de viver e de se relacionar. Isso graças a múltiplos elos de realimentação constitutivos do processo nutritivo do organismo, do grupo. Isso possibilita a incorporação dinâmica do novo sem perder a natureza constitutiva da relação, sendo possível a mudança, a evolução. O processo característico das estruturas dissipativas das organizações, dos grupos, permite o surgimento espontâneo de soluções novas e criativas em momentos de crise e de mobilização dessas relações e dessas estruturas. É a potencialização da capacidade criativa do conhecimento. A reflexão e a preocupação conjunta permite o surgimento de novas idéias, assim como das soluções políticas, da autonutrição originária desse espaço de vida intensificado pelo vínculo afetivo. Estamos falando da materialização estrutural do processo vivo das relações afetivas que se instauram a partir do contato, do vínculo, da articulação dos indivíduos e das suas organizações, dando origem às organizações como grupos de convívio, grupos de trabalho, cooperativas, sindicatos e qualquer outra organização instituída como a família, escola, etc. A maior estrutura que materializa essa vivência entre as pessoas é a formação da rede viva de relações e que tem seu suporte, como afirmamos antes, em nossa natureza orgânica, corporal, visceral, sensível e racional. Na estrutura genética das nossas células, situam-se as informações que dão a formatação para o estabelecimento de contatos e formação de vínculos. Nossos sentidos, deflagrados por ecofatores, dão forma concreta e sensível à percepção da realidade. Com esse ingrediente, é deflagrada nossa emoção e estabelecido o processo de constituição dos sentimentos de afeto que terão, por sua vez, influência direta sobre a formação do pensamento. A rede viva e concreta de relações passa pelas expressões do nosso olhar, do toque, da carícia, do abraço, do cuidado... que são expressões materiais dessa realidade imaterial constituída de emoções, sentimentos, empatia ou repulsa. Assim se constituem, como dissemos, os distintos grupos ou organismos vivos que integram um conjunto de pessoas. Nesta materialização das relações afetivas, surgem as distintas formas de pares e grupos. Diversas formas de Afetividade formam a rede viva das relações: o contato é mediação para o vínculo cuja natureza é o cuidado, a proteção, a amizade, o amor, a ternura, a qualificação, a amizade, a empatia, a fraternidade, a solidariedade, a compaixão, a fraternidade, a maternidade, o amor diferenciado e o amor indiferenciado envolvendo a identidade consigo mesma, com a identidade do outro e com a identidade do cosmo. Entre o padrão da organização das relações de afeto e sua incorporação na estrutura aberta em rede que permitem a sua vigência, está o processo vivo dos contatos, dos vínculos, a Afetividade como acontecimento afetivo nas relações de pessoas, grupos e organizações afins. É o processo vital como processo contínuo dessa incorporação. É essencial entender que o padrão de organização da Afetividade no homem tem forma de uma rede autogeradora. Nossa capacidade afetiva advém dessa potência de amar que emana da fonte da vida em nós e, sempre geradora, se autoproduz. Se nos sistemas biológicos a estrutura material de um sistema vivo é uma estrutura dissipativa, as estruturas que materializam as relações e vivências das emoções e dos sentimentos afetivos humanos são, pela natureza do afeto, essencialmente abertas. Quando começa um processo de rigidez e inflexibilidade, as relações passarão a entrar na esfera patológica. O afeto é uma relação criadora, renovadora, reguladora e integradora. Tem a dimensão do permanentemente novo e surpreendente. O afeto é cercado de erotismo, sensualidade, criatividade, vitalidade e realização. Podemos dizer que as quatro dimensões (forma, matéria, processo e sentido) da Afetividade, funcionam por um processo complexo em rede. No exemplo do metabolismo de uma célula apresentado por F. Capra, podemos esclarecer esta idéia: Consiste em uma rede (forma) de reações químicas (processo), que envolve a produção dos componentes da própria célula (matéria) e respondem cognitivamente, ou seja, através de mudanças estruturais autodeterminadas (processo) às perturbações do ambiente. Do mesmo modo, o fenômeno do surgimento espontâneo é um processo característico das estruturas dissipativas (matéria), que envolve múltiplos elos de realimentação (forma) (CAPRA, 2002:84). No caso de uma organização social ou sistema social, segundo este autor, o elemento central em qualquer análise sistêmica: [...] é a ‘noção de organização’ ou ‘padrão de organização’. Os sistemas vivos são redes autogeradoras, o que significa que o seu padrão de organização é um padrão em rede no qual cada componente contribui para a formação dos outros componentes. Essa idéia pode ser aplicada ao domínio social, desde que as redes vivas de que estamos falando sejam identificadas como redes de comunicações (CAPRA, 2002:102) Capra acrescenta um significado suplementar às organizações (empresas, organizações políticas). Os sistemas sociais produzem estruturas materiais e imateriais, como organogramas e regras de comportamento que facilitam a tomada de decisões no exercício do poder e corporificam o exercício do poder. Com certeza, não é fácil compreender a aplicabilidade dessa epistemologia ao fenômeno da Afetividade. Primeiro, reconhecemos que, se a Afetividade se expressa como fenômeno de agrado, cuidado, empatia, compreensão, solidariedade, respeito, etc., é um fenômeno que brota de um “padrão de organização” sistêmica que tem as características de uma cognição prévia, instaurada e pré-disposta na estrutura genética, na rede de instintos que reagem por fatores internos ou externos a nós. Essa realidade, como dissemos, tem a forma de uma rede e, diríamos, de uma fonte, de um manancial de onde surge a energia que produz e sustenta a rede de relações por meio do contato e do vínculo conseqüente. No padrão de organização do afeto, há estruturas materiais, genéticas, instintivas, viscerais, orgânicas; portanto, estruturas imateriais de valores, de certas normas culturais, e também de sensibilidade, desejos que são deflagrados em forma de vivência, de emoção e de sentimentos efetivos e vigentes de amizade, fraternidade, solidariedade, compaixão. Avançando um pouco mais na nossa abordagem, há formas concretas, organizacionais e comportamentais que materializam a rede de relações. Porém a experiência ou a vivência originária é determinante sobre a organização e vigência dessas relações. O processo de incorporação e atualização do potencial afetivo, desencadeado e deflagrado pelos fatores presentes, particularmente os mais potentes como a presença do outro guarda, incrível possibilidade do novo, facilitando às relações pessoais e de grupo infinita possibilidade criativa de expressão e movimento, mas uma estrutura aberta e dinâmica, permitindo as mudanças e uma solidez maior nos vínculos, uma efetiva mudança na qualidade de vida originária dessas vivências construtivas, formadoras e integrativas da identidade pessoal, de grupo e de organização. Começando a integrar os quatro elementos do modelo teórico, vemos que: A dimensão do significado da vivência da Afetividade, última dimensão dessa estrutura complexa de conhecimento é também a “renovação orgânica e o resgate das condições originárias da vida em nós”. As idéias, valores, saberes, crenças nascidas dessa vivência constituem estruturas de significado ou “estruturas semânticas” afetivas. Essa estrutura semântica e os padrões de organização da rede afetiva, Corporificam-se fisicamente em alguma medida no cérebro dos indivíduos que pertencem à rede. Podem também se incorporar em outras estruturas biológicas por meio de efeitos da mente sobre o corpo [...] (CAPRA, 2002:103). E o físico acrescenta que: Descobertas recentes das ciências da cognição nos dão a entender que, como a mente é sempre encarnada, ou corporificada, existe uma interação contínua entre as estruturas semânticas, as neurais, e outras estruturas biológicas (CAPRA, 2002:103). A natureza das relações afetivas pode gerar novas formas de ser e de viver, uma nova cultura do amor, com expressão em todas as dimensões das organizações sociais e culturais. Claro que a tendência da ordem cultural é cristalizar-se e perder a abertura flexível e criativa para o novo e surpreendente conteúdo da vivência afetiva. Entrar em contato profundo com a vida do outro nos mobiliza, além de qualquer explicação ou justificativa, a um impulso de amor solidário, fraterno, de compaixão. É aí o nascedouro da ética. Essa ética organizada e incorporada na cultura torna-se moral e pode perder a dinâmica da vida da qual ela nasceu. Na maioria das culturas distintas das culturas indo-européias, viviam-se estruturas sociais e organizações culturais que se integravam de forma mais conectada e amorosa com a vida no planeta, expressavam esse cuidado pela vida no cuidado com a comunidade, onde não havia fome, miséria, marginalidade, exclusão. 2.1.4. Um olhar para os horizontes da vida: As mudan-ças estruturais desse padrão em rede são compreendidas como processos cognitivos que, por fim, dão origem à experiência consciente e ao pensamento conceitual. Nenhum desses fenômenos cognitivos é material, mas todos são incorporados, decorrem num corpo – nascem de um corpo e são moldados por ele. Isso significa que a vida nunca está separada da matéria, muito embora suas características essenciais – organização, complexidade, processos, etc –sejam imateriais (CAPRA, 2002:103) Contudo, podemos afirmar que a expressão da Afetividade passa sempre pela corporeidade. Um olhar de ternura, de raiva, de ódio; um toque de cuidado, de carícia, um abraço com desvelo, um presente, uma fala de qualificação; um ato de amor, de entrega, de fusão tem sempre uma expressão corporal, expressão material. Por isso também, para Capra, a compreensão sistêmica da vida, e eu acrescento, da Afetividade, pode ser aplicada ao domínio social, acrescentando o ponto de vista do significado aos outros três pontos de vista. Significado = expressão sintética do mundo interior da consciência reflexiva, possui uma multiplicidade de características inter-relacionadas (CAPRA, 2002:103). Nessa quarta dimensão de abordagem sistêmica trata-se de considerar o significado da Afetividade na vida humana como fator de integração em todas as dimensões da realidade em que se expressa dinamicamente. Esse fator de integração é o afeto. A Afetividade não é um organismo vivo, mas a primeira e grande característica da vida, expressa como potencial no ser pessoal e num grupo humano. A vivência da Afetividade é momento originário e constitutivo de relações que tendem a se estabilizar e formar um modo de ser e de viver, uma cultura em rede. No fenômeno social nos deparamos com regras de comportamento, valores, intenções, objetivos, estratégias, projetos, relações de poder que ocorrem praticamente no mundo humano. Partilham todas de uma característica básica que nos proporciona um vínculo natural com a visão sistêmica da vida (CPRA, 2002: 86). A autoconsciência surgiu na evolução dos nossos antepassados hominídeos, junto com a linguagem, o pensamento conceitual, o mundo social dos relacionamentos organizados e da cultura. A consciência reflexiva está ligada à da linguagem e do contexto social desta e também, a compreensão da realidade social está inextricavelmente ligada à da consciência reflexiva. (CPRA, 2002: 86). Especificamente: A nossa capacidade de reter imagens mentais de objetos materiais e acontecimentos parece ser uma condição fundamental para o surgimento das características fundamentais da vida social. A capacidade de reter imagens mentais nos habilita a escolher entre diversas alternativas, o que é necessário para a formulação de valores e de regras sociais de comportamento. Os conflitos de interesse baseados na diferença de valores, estão na origem das relações de poder. As intenções, a consciência de uma finalidade e os projetos e estratégias necessárias para a consecução de objetivos – todas essas coisas exigem a projeção de imagens mentais para o futuro (CPRA, 2002: 86). O mundo interior dos conceitos, idéias, imagens e símbolos é uma dimensão essencial da realidade social e constitui o “caráter mental dos fenômenos sociais”, “dimensão hermenêutica” (CAPRA, 2002:86). A linguagem humana, por ser simbólica, envolve a comunicação de um significado e as ações humanas decorrem de um significado que atribuímos a um ambiente que nos rodeia. O fator essencial de conhecimento que nos leva a atribuir um significado a tudo o que nos rodeia é a Afetividade. Por todas as coisas pelas quais somos tocados, somos mobilizados à aceitação, ao agrado, à empatia ou à rejeição. Nesta dimensão de significação consciente e vivencial, aborda-se o sentido da Afetividade, desse todo vivido, conscientizado, tornado expressão racional e poético-vivencial. Um sentido que se efetiva na satisfação ou crescente ampliação de uma qualidade de vida, um sentido de abundância e de saciedade que brota do mais profundo da natureza afetiva do nosso ser. Esses são os quatro pilares epistemológicos para o estudo da realidade da Afetividade, sugeridos e elaborados por F. Capra para a abordagem das organizações sociais. Para nosso entendimento, são assim instrumentos para uma abordagem sistêmica e complexa do fenômeno genético-orgânico-vivencial e racional da Afetividade, uma vez que é ela que dá o caráter primeiro e integrador de organismo vivo a qualquer organização permeada pelo amor. O significado ou o sentido da Afetividade na vida e nas redes de relações é captado pelas exigências naturais internas do ser afetivo, pela capacidade reflexiva sobre nossas vivências e experiências, permitindo perceber que o sentido fundamental é a Integração Afetiva da Identidade na ontogênese de nosso ser, através da expressão e desenvolvimento dos potenciais humanos de criatividade existencial, de vitalidade, de conexão dos desejos mais profundos e da realização prazerosa de nossas ações. É ainda a realização das nossas conexões profundas conosco mesmo, com os outros e com a totalidade da realidade. Na troca afetiva, a possibilidade da abundância da vida em plenitude em todas suas dimensões. 3. CONCLUINDO O desejo de engendrar formas de propiciar processos de integração de grupo depende essencialmente de nossa vontade, decisão e criatividade em realizar nosso objetivo. O essencial é o sentimento de amorosidade que deve “permear nossa sala de aula” (Paulo Freire), traduzindo-se em reiterado movimento de qualificação, amizade, amor indiferenciado, conexão permanente com a experiência de cada educando. Inúmeros depoimentos de educadores indicam que efetivamente é o processo de integração afetiva de cuidado, de valorização, de contato e de vínculo nutritivo que aciona e torna presente a base estrutural da motivação para a construção do conhecimento. Tendo presente que nossos alunos têm em si mesmos e por natureza um potencial afetivo inerente à estrutura da identidade, podemos acreditar no desencadeamento de processo vivo de relações afetivas em rede. Acionadas essas potencialidades de relação, o grupo se torna o organismo vivo que potencializa suas capacidades criativas, seus potenciais políticos, de paixão pela pesquisa, sua consciência critica, sua expressão de organismo vitalizado, integrado, dando base para o respeito e a verdadeira autoridade que brota do amor. Podemos inverter a dinâmica atual do amor pelo poder pelo poder do amor. O fundamento da autoridade do professor é a afetividade articulada na relação com os alunos. A base estrutural do conhecimento é a afetividade e seu instrumento é a inteligência afetiva. Criando-se uma estrutura de relações incorporadas em sala de aula, num processo dinâmico, aberto, teremos no horizonte a perspectiva educativa fundamental que é a expressão e desenvolvimento integrado dos potenciais humanos do desejo e do prazer, de saudabilidade do movimento vital, enfim, de integração profunda da identidade pessoal e do grupo consigo mesmo, com o outro e com o cosmo. Em definitivo: a expressão e integração da identidade humana pela afetividade. Ultrapassando esta reflexão, queremos na seqüência deste trabalho, desenvolver a temática, fundamentando nossas reflexões em autores recomendados para o estudo da afetividade: Wallon, R. Spitz, Vigotsky e Rolando Toro, assim como tantos outros autores que abordam aspectos da afetividade como: o cuidado, a ternura, o amor, etc. Pretendemos estender a investigação para múltiplas e complexas dimensões às quais a afetividade faz referência. 4. BIBLIOGRAFIA DALLA VECCHIA, Agostinho Mario. AFETIVIDADE: Convergência entre Educação Biocêntrica e a Educação dialógica de Paulo Freire. Pensamento Biocêntrico, páginas 11-34; www.pensamentobiocentrico.com.br AFETIVIDADE. Curso de Formação Docente em Biodanza – Sistema Rolando Toro. Interational Biocentric Fundation. TORO, Rolando. Biodanza. São Paulo: Editora Olavobrás / EPB, 2002 GÓIS. Cezar Wagner de L., Biodança: Identidade e Vivência. Edições Instituto Paulo Freire do Ceará: Fortaleza, 2002. SPITZ, René A. O Priemiro ano de Vida. São Paulo: Martins Fontes, 1979. MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Lisboa, Instituto Piaget, s.d. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à Educação do Futuro. São Paulo: Cortez, 2002. MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco. A árvore do conhecimento -As bases biológicas do entendimento humano. Campinas, Editorial PSY 11, 1995 (orig. esp. 1985). CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. São Paulo: Cultrix, 2002 MODELO TEÓRICO. EDUCAÇÃO BIOCÊNTRICA. Curso de Formação Docente em Biodanza – Sistema Rolando Toro. Interational Biocentric Fundation. SIGNOR, Dorly. Filosofia e Biodança. Santa Maria: Editora Palotti, 2003. 1 Gaduado em Filosofia, Cursos incompletos em Teologia e Ciências Contábeis, Especialista em Educação, Mestre e Doutor em História do Brasil, Facilitador de Biodanza, professor da Universidade Federal de Pelotas, Faculdade de Educação |